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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Educação médica fora de fronteiras

A educação médica torna indispensável, principalmente ao nível da Medicina Hospitalar (julgo eu), a ida a congressos, simpósios, cursos e eventos semelhantes no estrangeiro. A dimensão e a complexidade da Medicina fazem com que seja impossível num país manter-se o estado da arte com acções de educação médica apenas dentro de fronteiras. A haver um país que conseguisse fazer isso - manter a sua Medicina a um nível elevado sem que os seus médicos saíssem rotineiramente do país - esse país seria um caso único. O candidato isolado a caso único seria actualmente os USA. A UE se olhada como um"país único" também poderia qualificar-se.

Isto só pode ser posto em causa por quem não saiba do que fala ou esteja mal intencionado.

A saída de médicos em número relevante para o estrangeiro, para manter o nível da Medicina Portuguesa no estado moderadamente evoluído que se observa hoje, é do interesse nacional. Como se compreenderá os custos envolvidos são de certa monta. Quem suporta estes custos é tradicionalmente a indústria farmacêutica pois, ao contrário do que acontece com as Universidades, não há financiamento institucional relevante para esse efeito.

A motivação da indústria farmacêutica na colaboração na formação médica é comercial. A indústria acha que vende mais fármacos se colaborar na formação médica. O custo dessa formação é incorporado no preço dos medicamentos e pago pelo estado e pelos doentes.

Acontece que mesmo com a enorme melhoria do controlo (controlo externo e auto-controlo) da indústria farmacêutica, continuam a existir muitos casos em que o que a indústria financia não é a formação médica mas sim o turismo. Como a motivação da indústria é comercial e a motivação de alguns médicos não é científica, este fenómeno persiste apesar de muito diminuído como quem está no terreno sabe. Diminuído pelo controlo e diminuído pela motivação médica que hoje é muito mais dirigida à formação genuína do que foi no passado.

Apesar do tema dos abusos ser importante não é ele que me interessa hoje. Abordei-o porque é incontornável quando se fala de financiamento por parte da indústria às actividades médicas.

Acontece que a diminuição da margem de comercialização dos fármacos, está a encolher de forma dramática as verbas de que a indústria dispõe para investir na formação médica. Quem irá substituir a indústria no financiamento da formação médica? Os hospitais - ou seja o orçamento de estado - é a única alternativa possível. É aliás assim que funciona a formação noutros países e desistir da formação seria um desastre nacional. Na minha opinião o financiamento directo por parte do estado é teoricamente melhor do que o financiamento por parte da indústria. Infelizmente é improvável que o estado português tenha a lucidez e as verbas necessárias à manutenção dessa actividade ao nível actual pelo que é indispensável que se procurem soluções imaginativas para fazer o mesmo com menos.



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